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Que as divergências políticas na igreja acabem em pizza

Tenho lido nas redes sociais – esse nosso muro das lamentações digital – relatos de irmãos chateados com a proporção que o embate político das últimas eleições ganhou dentro das igrejas evangélicas.

Já li crente dizendo que vai largar a igreja porque escutou o pastor dizer que votaria no Bolsonaro; outro escreveu textão no Facebook porque quase foi excomungado por ter declarado voto em Haddad; e tem irmãozinho que está desde outubro sem participar da Santa Ceia porque se recusa a fazer parte de uma comunidade onde o pastor fica sempre em cima do muro.

Nessas horas em que o vinho oxida e o pão embolora, o cristão evangélico brasileiro ainda pode encontrar na pizza um caminho sobremodo excelente para comungar.

Há tempos a pizza após o culto do domingo à noite entrou definitivamente para a liturgia da igreja evangélica brasileira. O apêndice litúrgico nunca foi oficializado em nenhum concílio, mas está lá, latente logo após a bênção sacerdotal, habitando a mente e o estômago dos crentes.

Acredito que a santa pizza dominical ganhou espaço na comunidade evangélica brasileira porque é o único tema unânime na multiforme congregação nacional. Diante da iguaria, já presenciei arminianos e calvinistas degustarem a graça comum de uma simples mussarela, elegendo incondicionalmente a borda de catupiry antes mesmo do menu chegar à mesa.

Noutra ocasião em uma padaria, notei irmãos amilenistas quase serem arrebatados da mesa após serem servidos de uma pizza de rúcula com tomate-seco e mussarela de búfala. A santa pizza, somente ela, une heterodoxos – que ungem a fatia com catchup – e ortodoxos – que preferem o tradicional azeite. Eu mesmo, como presbítero, já participei de reuniões de conselho onde a única concordância girou em torno da calabresa com cebola.

Em tempo, ressalta-se a infalibilidade da pizza. Ela agrada a todos os paladares, do baterista ao pianista; do coral à equipe de louvor; da sociedade feminina ao grupo dos homens; do pastor ao seminarista. Destaca-se também que a santa pizza pode lapidar o caráter do crente.

Vi uma irmãzinha que não é dizimista fiel – mas é fã de pizza – dar uma oferta generosa que bancou quase o valor integral das pizzas encomendadas para a reunião dos jovens. E de quebra a varoa ainda deu gorjeta para o motoboy!

Muito importante reconhecer ainda que tal apreço do crente brasileiro pela pizza culminou na redefinição de um dos mais famigerados lemas da cultura nacional. Pois somente o crente brasileiro orgulha-se em dizer que o encontro “Vai acabar em pizza!”, crendo que o desfecho será bom para todas as gentes.

Sem querer ser muito exigente em minha pouca exegese, acredito que a santa pizza pode ser um delicioso meio para reaproximar irmãos na fé afastados por intrigas políticas menores.

Portanto, acheguemo-nos confiantemente ao forno a lenha para que deixemos de lado nosso intragável orgulho e degustemos o melhor da comunhão dos santos. E não nos contetemos com migalhas de bacon e bocadinho de peperoni; comamos até nos fartar celebrando a comunhão que alimenta nossa alma.

  • Daniel Theodoro, 33 anos. Cristão em reforma, casado com a Fernanda. Formado em Jornalismo e Letras.

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