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O que as palavras fazem comigo

Na maioria das vezes, a vida passa despercebida por nossas retinas. É preciso algo imprevisto para nos fazer enxergar de fato. De imprevisto quero dizer uma tragédia, uma noite mal dormida, um atalho, um grito inesperado que nos desperta para um fato, uma verdade ou simplesmente um rosto.

No meu caso, os dias de isolamento social causados pela ameaça do Covid-19 têm feito um certo bem a mim. “Certo bem” porque não quero ignorar todo o mal que ele também vem causando.

Voltando: a quietude desses dias me acordou para muitas coisas, mas aqui neste texto quero falar de algo bem simples: as palavras. As palavras têm me despertado. Algumas delas, pelo menos. É interessante perceber que, mesmo sendo velhas conhecidas de meu imaginário, parece que elas ressurgiram com uma força surpreendente. Vou listar a seguir algumas dessas poderosas palavras:

Afeto: Pequena, aguda, essa palavra vinha rodeando minha mente, mas agora está bem em minha frente: vívida, potente, provocante. Me instiga a voltar à essência dos relacionamentos, a começar pela família. E é impressionante o bem que ela faz! A palavra “afeto” significa carinho, é gratuidade, é perceber-se aberto ao amor. Na verdade, afeto é o rosto do amor. Há várias maneiras de expressar afeto (e, assim, deixo claro que cada um tem o seu jeito próprio), mas um princípio o acompanha: conexão. O afeto nos conecta com o outro, e o faz com peculiaridade, com jeito próprio, com a face única de cada um de nós. A vida precisa de afeto, mas, infelizmente, é diante da morte que despertamos para este bem que é humano, mas de origem divina.

Sol: sempre achei “sol” uma palavra maravilhosa por ser simples e, ao mesmo tempo, forte. Ela me instiga a sair do esconderijo, da zona de conforto, do lugar comum. O sol propriamente dito é uma dádiva; ele aquece o corpo e potencializa nossa energia interna. O sol me ativa a memória afetiva e me faz viajar pelas lembranças da infância em minha ensolarada Igarapé-Açu. Sol é quase sinônimo de vida; representa energia e – não se esqueça – é companhia inseparável do tempo.

Imaginação: essa é uma palavra corajosa, sempre abrindo caminho para seguirmos em frente, a despeito das limitações naturais da vida. “Imaginação” é uma palavra associada às crianças, mas a maioria dos adultos a ignora ou subestima seu potencial. “Imaginação” alarga a vida e estende o efeito da alegria para quem gosta de sonhar.

Deus: é verdade que essa palavra me acompanha desde que me entendo por gente. Mas nesses dias ela se tornou mais concreta, mais “limpa”. Explico: como sempre fui ligado à religião, corro o risco de transformar a palavra “Deus” em algo banal, comum e assim “contaminá-la” com conveniências supérfluas. Assim sendo, acabo não me surpreendendo mais quando a ouço, não me identifico mais com o que ela evoca, não sou tomado pelas experiências místicas que ela já provocou em mim. Mas quando a ouço com atenção e com coração e mente em adoração, experimento muito mais do que minha psicologia é capaz de provocar. “Deus” é uma palavra completa; e por assim ser, me desafia a buscar completude também, me faz querer o melhor, me encoraja à libertação e a seguir um novo e vivo caminho da ressurreição. “Deus” é a palavra que mais me impressiona.

Claro, palavras não têm vida em si mesmas; são arcabouços linguísticos para algo muito maior do que podemos definir. Mas para quem gosta de literatura como eu, palavras trazem tesouros escondidos inimagináveis. Portanto, esses são alguns dos tesouros que usufruo nesses dias sombrios. E, quiçá, me desafiam a ser uma pessoa melhor.

Que palavras te afetam positivamente?

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