Ainda não há comentários

O que a filosofia pode oferecer a Igreja?

Falei um pouco no primeiro texto (“Filosofia e Apologética: uma relação perigosa”) sobre como a filosofia pode nos ajudar a desenvolver nosso caráter intelectual e nos tornar pessoas melhores e amantes mais entusiasmados da verdade. Mas, além do desenvolvimento de virtudes devido à postura da atividade filosófica, o que a filosofia pode oferecer para a Igreja cristã? Neste texto, falarei um pouco sobre como a teologia sistemática tem muito a lucrar da filosofia, e, no próximo texto (“Filosofia da Linguagem e Exegese Bíblica”), falo um pouco de como a teologia bíblica pode se beneficiar de um contato com a filosofia da linguagem.

Em primeiro lugar, a teologia filosófica (que é uma subdisciplina da teologia sistemática) pode ser aplicada a qualquer aspecto da doutrina cristã. O que um teólogo filosófico faz nada mais é do que pensar os conceitos e doutrinas da teologia à luz de ferramentas e desenvolvimentos da filosofia. Por exemplo: podemos pensar – como foi feito em The Metaphysics of Incarnation (editado por Ana Marmodoro e Jonathan Hill) – acerca das implicações metafísicas da encarnação de Cristo: como Cristo é, hoje, encarnado no seu corpo ressurreto e simultaneamente onipotente e onisciente. Isso traz implicações para nossa forma de enxergar os atributos divinos e os atributos da matéria.

Michael Rea e Jeffrey Brower1 ofereceram uma nova interpretação metafísica da doutrina da Trindade, se esforçando para mantê-la dentro da ortodoxia e evitando o problema lógico da Trindade – a saber, de que Deus seria, ao mesmo tempo, um indivíduo e três indivíduos. Sua solução é criticada por alguns e elogiada por outros, mas essa abertura para explorar novas teorias e reconhecer seus méritos e suas limitações é muito importante.

Podemos também nos debruçar na filosofia da liturgia (como têm feito autores como James K. A. Smith2, Terence Cuneo3 e Joshua Cockayne4): qual o significado dos nossos ritos litúrgicos, incluindo os sacramentos? Como eles nos moldam enquanto indivíduos? Como podemos performá-los? Para Smith, as nossas práticas litúrgicas são centrais na nossa educação religiosa e revelam nossos comprometimentos mais profundos do coração. Para Cockayne, o culto público é antes uma questão de liturgia e prática da adoração, envolvendo um conhecimento saber-fazer (know-how), e não simplesmente uma questão de aprendizado de proposições verdadeiras e uma exposição conteudista (conhecimento proposicional). O foco do culto não é aprender fatos sobre Deus, mas aprender (pela prática) como adorá-lo em comunidade e como se prostrar diante dele em humildade.

Investigações em teologia filosófica também nos ajudam a compreender os atributos de Deus. Hoje sabemos que o atributo da onipotência, sem qualificações, não pode ser entendido sem gerar paradoxos: “Deus pode criar uma pedra que Ele mesmo não possa levantar?” Precisamos qualificar onipotência como a posse de todas as potências, isto é, Deus pode fazer tudo que é possível ser feito, mas aquilo que é logicamente e metafisicamente impossível (criar um círculo quadrado ou fazer 2+2 ser 5, ou mesmo criar uma pedra que um ser onipotente não possa levantar) são impossibilidades até mesmo para Deus. A própria Bíblia afirma que Deus não pode mentir, de modo que não devemos entender a onipotência sem nenhuma qualificação explicativa.

Outros atributos de Deus também são estudados pela teologia filosófica, e potenciais contradições entre diferentes atributos são elucidadas e muitas vezes eliminadas – ou nossa concepção dos atributos é revisada. Um exemplo é a simplicidade, que muitos na tradição cristã atribuíram (e ainda atribuem) a Deus. A simplicidade afirma que em Deus não há nenhuma parte ou divisão: todos os atos de Deus são uma única coisa, que é a mesma coisa que todos os seus atributos, todas as suas manifestações etc. É muito óbvio ver como a simplicidade parece incoerente com o Deus bíblico, que se manifesta em diferentes ocasiões de diferentes aspectos, que se encarna, morre e sofre, que conhece várias coisas distintas em atos distintos de pensamento e assim por diante. Teólogos filosóficos caracterizam minuciosamente esses problemas e esses atributos e tentam ver se é coerente sustentá-los: alguns defendem que sim, outros, que não.

A teologia filosófica é uma disciplina que tem florescido muito nos últimos anos. Há um pouco de teologia filosófica no Brasil, mas o que é muito incomum por aqui é encontrarmos a teologia filosófica que dialoga com a filosofia analítica, recentemente chamada de teologia analítica (Analytic Theology). Curiosamente, herdamos quase toda nossa influência de fé dos Estados Unidos e Grã-Bretanha, mas nossa influência filosófica vem do continente europeu, especialmente francesa e germânica. Isso é o caso porque, em geral, não conhecemos a filosofia via os pastores que lemos e estudamos (como Tim Keller, John Piper e John Stott) mas via os estudos de humanidades nas universidades brasileiras, grandemente dominados por uma influência da Universidade de São Paulo (USP) e por uma tradição francesa forte.

Em todo o mundo, contudo, os filósofos acadêmicos mais bem-reputados não são aqueles que leem e publicam principalmente sobre Nietzsche, Sartre ou Heidegger, mas sim os que conhecem Frege, Russell e Moore, os pais da tradição analítica. A teologia filosófica e a filosofia da religião anglófonas também estão se desenvolvendo no seio da chamada tradição analítica (embora o nome ‘analítico’ já não possua nenhum significado preciso na academia). Sem abandonar o que temos de tradição em teologia filosófica continental (do continente europeu, em oposição à ilha da Grã-Bretanha), devemos ampliar nossos olhares para os desenvolvimentos interessantíssimos da filosofia analítica e aprender a nos apropriar das ferramentas que podem nos oferecer para a prática teológica.

Além da teologia filosófica, a ética cristã é um campo que tem muito a ganhar da ética e metaética filosóficas. Discussões sobre a origem do certo e do errado, e o valor moral das ações e das coisas alcançaram patamares muito profundos na filosofia contemporânea. A ética cristã deve ser consequencialista, isto é, os fins alcançados determinam o valor da ação com relativa independência quanto aos meios usados para alcançá-los? Ou a ética correta é a deontológica: ser uma ação correta é algo que independe do contexto em que tal ação se situa e dos resultados que ela gera? Deus determina arbitrariamente como devemos viver, estabelecendo mandamentos, ou o certo e o errado são parte do próprio caráter de Deus, que Ele mesmo não poderia violar? E as virtudes que o caráter cristão deve almejar (coragem, humildade, sabedoria prática, amor, fidelidade…) são desenvolvidas por hábito, esforço e prática ou são dons divinos nos quais nenhum esforço humano está envolvido? Ou haveria uma opção moderada, entre esses extremos?

Por fim, gostaria de apontar para um desenvolvimento enorme e uma grande vitória que houve para a fé na filosofia da religião e teologia natural do século 20. Um problema milenar para a crença teísta, o chamado problema lógico do mal (que acusa uma inconsistência lógica entre as crenças na existência de Deus e do mal) foi definitivamente resolvido por um filósofo reformado chamado Alvin Plantinga6. Embora o problema do mal possua muitos aspectos não lógicos ainda em aberto e em debate, a demonstração de Plantinga de que as crenças em Deus e na existência do mal não são logicamente contraditórias foi um marco que mudou completamente a filosofia da religião e resultou em um aumento considerável no número de cristãos entre os filósofos. Aos que, erroneamente, assumem que a filosofia se circunscreve nas ciências humanas, vale lembrar que a lógica é uma ciência formal tão simbólica quanto a matemática e a computação. Plantinga precisou de maestria no cálculo formal para obter esse resultado histórico.

Meu desejo é que nossa teologia sistemática se beneficie da clareza e das ferramentas conceituais altamente sofisticadas da filosofia analítica, e que possamos popularizar entre nós esses debates e conversas sobre quem é esse Deus Maravilhoso que adoramos todos os dias de nossas vidas.

 Davi Bastos é professor de filosofia e mestrando em história da filosofia antiga na Unicamp. É marido da Samara e pai do Moisés. Ensina filosofia de qualidade em diálogo com a fé cristã gratuitamente no Instagram @profdavibastos.

Deixe um comentário