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O conflito de Jesus com as Instituições

Certamente o amadurecimento na vida cristã passa por questionamentos e desconstruções profundas e inquietantes.

Há questões que nem ousamos fazer, porque podem parecer “pecaminosas” ou porque nos dão o trabalho de “desconstruir” e rever princípios.

Azorrague (Editora Mundo Cristão) é um desses livros em que vemos algumas dessas questões que tentamos evitar. Somos confrontados com uma leitura clara, instigante, eloquente, por vezes perturbadora, controversa e crítica. Porém, inspiradora, bíblica e autêntica. Não tem como não parar e refletir.

Ao analisar a moral e o legalismo presentes na religião judaica e mostrar a forma como Jesus reagiu, Antônio Carlos Costa mostra que nós corremos os mesmos riscos de ser, individual ou comunitariamente, questionados e até rejeitados por Jesus, nosso amoroso Mestre.

O livro tem cinco capítulos, cada um com uma passagem bíblica pela qual o autor nos faz caminhar, atentando para conflitos encontrados por Jesus na prática dos líderes religiosos da época.

São cinco capítulos, cinco passagens bíblicas, cinco reações e lições de Jesus sobre um comportamento religioso reprovável, a partir da ótica do Evangelho que Ele veio encarnar.

O primeiro texto bíblico mostra a mulher adúltera, os doutores da Lei e Jesus, que, com uma resposta inesperada, confronta o moralismo religioso, também presente hoje no seio de muitas igrejas e que faz com que se perca de vista a singularidade da vida humana. Como naquela época, frequentemente confunde-se pregar o evangelho com pregar moralidade. Passa a ser mais importante expor os erros dos pecadores e condená-los do que praticar a misericórdia e admoestar o pecador em amor.

Outro texto está em Marcos 7.1-23. Jesus declara que “o que sai do homem, isso é o que o contamina”. Vivemos numa sociedade que nos impõe vários fardos. A Igreja, que deveria ser agente revelador daquele que se oferece para carregar nossos fardos, tem sido também fonte geradora de pesos. Cristo confronta a tradição religiosa socialmente construída, que gera inflexibilidade e legalismo e coloca “na boca de Deus”, como diz o autor, “o que Deus nunca falou”. “Ao sobrecarregar os homens com fardos que ninguém consegue suportar, as tradições religiosas fazem que até mesmo cristãos sintam-se exasperados em relação a Deus”.

O terceiro texto fala sobre a “religião sem alma”, a partir da parábola do Bom Samaritano (Lucas 10.25-37). Que belo capítulo! Somos criados para o amor. O próprio intérprete da Lei sabe a doutrina e responde: “Amarás o Senhor, teu Deus. Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Mas, e a prática? “Para alguns mestres (da Lei), esse amor pelo próximo significava apenas amor pelos judeus e pelos convertidos ao judaísmo”.

A cultura religiosa de algumas igrejas reproduz esse tipo de amor seletivo que o autor chama de “amor mutilado”. “Amar o próximo significa fazer com que cada pessoa que cruza o nosso caminho volte para casa se sentindo amada[…] Amar é tornar o próximo… próximo de Deus”. Podemos e devemos adorar a Deus por meio do serviço àqueles feridos à beira do caminho, sem permitir que a religião nos desumanize.

No quarto texto (Mateus 23.1-39), Jesus critica duramente os líderes “do mal” – “Ai de vós, escribas e fariseus…”. O autor revela como Jesus alerta as multidões sobre os perigos da religião, mostra aos discípulos como não conduzir o rebanho e anuncia o juízo por vir, alertando sobre a responsabilidade dos líderes. Um capítulo perturbador, mas muito pertinente.

Por fim, ao abordar o texto sobre o fariseu e o publicano (Lucas 18.9-14) no capítulo “Cristo e o grande pecado da religião”, o autor confronta os líderes que dão margem ao orgulho, à justiça própria e à inferiorização dos que são tidos como “mais pecadores”.

Em meio a tantas exortações, há esperança: é o Evangelho que nos salva do farisaísmo!

Marô da Matta Machado é professora, casada com Zilbinho, mãe da Lis e da Júlia.

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