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Altruísmo: a centelha da Missão Integral

UltJovem_23_06_14_PaesÉ de se espantar que, mesmo diante de todo o conteúdo dos quatro evangelhos a respeito da assistência ao necessitado, a Teologia da Missão Integral ainda continue sendo rotulada de marxista, de versão protestante da Teologia da Libertação e de conjunto de medidas populistas, como se o Evangelho não fossem as boas novas do povão e como se Jesus tivesse lido o Manifesto Comunista ou outras literaturas posteriores para formular a sua proposta de experiência cristã, ou seja, que o altruísmo deve estar presente em todas as relações humanas.

Sobretudo, ser altruísta na concepção de Cristo significa possuir uma virtude que vai bem mais além do que simplesmente “pensar nos outros” ou até “amar como a si mesmo”. Para o mestre, o padrão deve ser estendido ao “amem uns aos outros assim como eu amei vocês” (Jo 13.33-35). Esta perspectiva nos ajuda a compreender que o amor ao próximo não está restrito a uma dimensão interna e sentimental, mas que se expande à atitude de priorizar, de se abnegar, de partilhar e de, quando necessário, se despir para que o outro se vista.

Em síntese, mediante os princípios da necessidade e proporcionalidade, o altruísmo cristão consiste em ações como: dar ou emprestar a quem pede (Mt 5.42); desfazer-se da excessividade dos bens e dar aos pobres (Mt 19.21; Lc 12.33); receber e acolher aqueles a quem o mundo despreza (Lc 14.12-14); repartir o pão com o faminto, cobrir o nu e amparar o pobre desabrigado (Is 58.7). Assim sendo, haverá a igualdade ambicionada por Paulo com relação aos que semearam bem e estão em abundância e aos que não semearam e estão em sobrecarga (2 Co 8.12-14).

A meu ver, é inadmissível pensar que textos como estes, ou são tratados como relativos ao contexto de Jesus ou ignorados no afã de gerar um desencargo de consciência tal que a Igreja possa se sentir à vontade na sociedade onde está inserida, sem, contudo, interferir nas realidades com as quais convive. Se em Israel, os mais vulneráveis eram os órfãos, as viúvas, os estrangeiros e os enfermos, é necessário saber que a dilatação do reino produzida na cruz, abrangerá as mazelas sociais existentes em todo o mundo. A Igreja precisa colocar a candeia sobre a mesa.

É isto mesmo que você entendeu. Iluminar o mundo com a luz de Cristo não é uma tarefa meramente teórica ou que reside no âmago de púlpitos, congressos e sacramentos. Estes elementos são relevantes para os encontros, a manutenção e o progresso do corpo. Mas esta é apenas uma das missões eclesiásticas. A outra e, em minha opinião, a mais importante e complexa, é tentar alcançar os da rua, da praça, das esquinas de bordeis e motéis, dos lugares mais recônditos e periféricos, pois estes são os pobres a quem Jesus estava aconchegando (Mt 11.5).

Mas aí você poderia pensar: a tarefa da Igreja é somente pronunciar oralmente a mensagem da cruz, pois a assistência social, hospitalar, habitacional e alimentar, são funções dos governos e de suas políticas e conjunturas. Eu tenho o imenso prazer de lhe asseverar que este é um grande equívoco. E, por incrível que pareça, foi o mesmo erro que os discípulos cometeram após um dos sermões do mestre. Eles queriam despedir a multidão, deixando-a a mercê de suas próprias condições para se alimentar no caminho. Mas Jesus os repreendeu: “Dai-lhes vós mesmos de comer.” (Mt 14.15-16)

Esta é a finalidade da Teologia da Missão Integral, isto é, o que ela propõe é uma união deste altruísmo material com a proclamação oral do Evangelho. Neste sentido, a TMI consegue conciliar a verbalização da mensagem de Cristo com o auxílio àqueles que precisam ser alcançados ou mantidos, de modo que nas comunidades cristãs haja o mínimo de dignidade para todos e que, no mundo, os invisíveis da sociedade sejam enxergados e socorridos por tais comunidades. Se “nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”, o oposto também é verdadeiro.

E não pense você que este socorro deverá ser perpétuo, inibindo a livre iniciativa de trabalho ou a independência financeira do socorrido. É óbvio que este amparo é tão transitório quanto à carência que o solicitou e que sua razão de existir navega pela nobre vontade de proporcionar o progresso individual às pessoas, a fim de que, posteriormente, haja nelas a satisfação e a honradez de gerarem os seus próprios meios. O maná, as roupas e as sandálias que não gastam, têm seus tempos de vida útil idêntico ao período de permanência no deserto.

Por conseguinte, perceba que quando Jesus estava tecendo o sermão do monte, ele não se esqueceu de relacionar aquilo que, em um sentido restrito, nos é essencial para existir e viver com decência: alimentação e roupas (Mt 6.25-33). E foi exatamente destes itens que João Batista (Lc 3.10,11) e Tiago (Tg 2.14-16) se apropriaram, a fim de ensinar ao seu público que a promoção da justiça através das obras é um fator que complementa a concepção da verdadeira fé, pois ambas são tão harmônicas, que uma sem a outra se torna uma peça morta da engrenagem.

Contudo, a integralidade da Missão de Jesus não acaba por aí. Além de alimentos e vestes, Cristo por duas vezes ampliou a extensão de sua missiologia até o custeio de abrigo e hospitalidade para com os que precisam de acolhimento (Mt 25.35-45; Lc 10.33-35). A partir daí, podemos perceber que sua abordagem sempre nos ensina um caminho de evangelização e discipulado que abrange a totalidade do homem, de forma que as urgências inerentes à pessoa humana devam ser solucionadas, primeira e principalmente, pela Igreja, seja de modo espiritual ou material.

• Marlon Teixeira, 20 anos, é de Ipatinga, MG.

Nota: Artigo publicado originalmente no blog do autor.

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