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A Reforma, a vida e a arte! Parte I

A Reforma, a vida e a arte

Texto básico: Salmo 24.1,2; Romanos 12.1,2; 1 Coríntios 10.23-31

Para Ler e Meditar Durante a Semana
D – Salmo 27.1-14  >  A beleza do Senhor
S – Salmo 96.1-13  >  A beleza da Santidade de Deus
T – Gênesis 1.26-31  >  Tudo era muito bom
Q – Eclesiastes 3.9-15  >  Tudo fez Deus formoso
Q – Salmos 33.1-22  >  Cultuar a Deus com arte
S – 2 Coríntios 13.1-10  >  Nada podemos contra a verdade
S – 1 Coríntios 10.23-33  >  Tudo para glória de Deus

Introdução

A Bíblia afirma que “… o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.4). O que isso quer dizer? Que o mundo está sob controle de Satanás? Mas o diabo é chamado o deus deste mundo exatamente da mesma forma como Baal era chamado deus em Canaã. Não são de fato deuses, embora sejam tratados como tais pela imaginação humana pecaminosa. O próprio diabo, como disse Lutero, “… é o diabo de Deus”. Embora o ser humano caído tenha transformado este mundo em lugar de rebeldia, Satanás não tem a mínima chance de vitória final; ele não pode frustrar os intentos de Deus (Dn 4.34-37).

Sendo que este é o mundo de Deus e que ele reina soberano (Sl 24.1) ainda mesmo quando não reina como Salvador, como podemos nos tornar “cristãos do mundo” (Jo 17.15-18) no melhor sentido da frase? Lutero sabia que compreender a justificação pela fé em Cristo[1] revolucionaria os relacionamentos humanos. O crente estaria livre para ver o mundo como uma atividade espiritual e piedosa, em vez de separar-se dele com o entendimento distorcido de que estivesse assim se separando do pecado. “Pois até mesmo na cela do monge,” Lutero lembrava, “eu ainda tinha aquela malandra (sua própria natureza pecaminosa) ali junto comigo”. Sem esse entendimento recomendaremos a alguém, que quer dedicar a sua vida a Deus, que faça o seminário ou que arranje emprego numa firma evangélica, e não veremos nossas atividades seculares como parte do nosso Cristianismo mesmo sem incluir algum versículo bíblico no meio. Noutras palavras, Deus se agrada de nossa atividade comum e fiel neste mundo, de tal forma que um crente não tem de exercer uma atividade religiosa para servir ao Senhor.

Vejamos como a Reforma, com esse entendimento da soberania de Deus, influenciou as várias áreas da vida secular.

I. A Santidade do dia-a-dia: a Arte

Nas pinturas medievais o assunto era quase sempre religioso. Mesmo quando retratados assuntos seculares (tais como os mitos pagãos), personagens ou imagens bíblicas eram integradas como se de alguma forma o assunto secular exigisse alguma justificativa. Mas os artistas influenciados pela Reforma não faziam arte para pregar ou ensinar. Faziam arte secular sem complexo de culpa porque sabiam que estavam glorificando a Deus (1Co 10.31). Somos tocados por seus retratos de vida comum nos vilarejos, camponeses trabalhando, descansando ou famílias em volta de suas mesas.

Há, portanto, dois princípios importantes funcionando:

  1. Há a aceitação do mundo como é de verdade, criado por Deus, sob o cuidado de Deus, mas quebrado e corrupto. A arte influenciada pela Reforma é totalmente realista, não espiritualizada. Existe perspectiva verdadeira, dando a impressão de que (por exemplo) a família retratada é de verdade, mora num lugar de verdade, dentro de um tempo verdadeiro, não uma família espiritualizada e sem ligação com a realidade do mundo. A Reforma enfatizou que Deus se fez homem, trazendo dignidade à vida terrena e secular.
  2. Não é necessário “santificar” a arte exigindo que ela sirva aos interesses morais e religiosos da igreja. A Criação é uma esfera legítima em si mesma e a arte não precisa de justificativas.[2]

O reformador de Zurique, Ulrico Zuínglio (1484-1531) proibiu a arte e a música na igreja porque insistia na centralidade única da Palavra e dos sacramentos. Contudo ele próprio tocava instrumentos e fundou a orquestra de Zurique. “Não sou da opinião”, disse Lutero, “que as artes devam ser jogadas de lado ou desprezadas pelo evangelho, como protestam algumas pessoas superespirituais.”[3] Compositor de hinos ele mesmo, Lutero inspirou toda uma tradição de hinologia evangélica, mas os artistas influenciados pela Reforma não criaram apenas arte religiosa. As peças seculares de Bach e os quadros de Rembrandt, por exemplo, são uma declaração de que é possível também fazer arte secular para a glória de Deus.

O que esses artistas compreenderam foi que, no secular e no sagrado, Deus é Senhor. As áreas são distintas, mas Deus é o mesmo. A tradição reformada mais influenciada por João Calvino produziu também uma rica tradição artística. O Barroco Holandês foi um tributo à sua influência. Até mesmo nas artes dramáticas, houve um impacto notável. A maioria das peças dramáticas antes da Reforma era em forma de peças de moralidade, que freqüentemente tinham o mesmo final: o bom era recebido na glória e os que não aprenderam a lição eram lançados no inferno. Mas os reformadores libertaram também esta esfera do domínio da igreja. Na verdade, o pastor associado de Calvino e seu sucessor em Genebra, Teodoro Beza (1519-1605), enquanto produzia os seus escritos teológicos escreveu a primeira tragédia francesa. Os puritanos na Inglaterra estavam longe de condenar o teatro, como demonstrou uma obra teatral importante por Martin Butler, Theater and Crisis, 1632-1642 (Cambridge University Press, 1984). Muitos deles eram, eles próprios, arquitetos do palco shakesperiano.

II. A Santidade do dia-a-dia: a Literatura, a Ciência e a Educação

Nas artes literárias também a Reforma inspirou liberdade das imposições eclesiásticas. Lutero escreveu sobre uma variedade de assuntos seculares e Calvino até mesmo experimentou fazer poesia. A primeira obra publicada de Calvino foi o comentário De Clementia (sobre a clemência), um estudo do antigo jurista romano Sêneca. Beza escreveu textos políticos que muitos historiadores hoje consideram como tendo grande influência na formação da teoria democrática moderna.

O mesmo espírito prevaleceu na ciência. Não há melhor exemplo da confusão e do domínio da Igreja Católica sobre os empreendimentos científicos do que no caso de Copérnico.[4] Quando a igreja fala onde a Escritura não falou, enfraquece a autoridade bíblica com afirmativas dogmáticas impossíveis de ser reconciliadas com os fatos. Quando a ciência provou que a terra girava em torno do sol, muitos concluíram que a Bíblia estava errada. Mas para os reformadores a Bíblia era sobre Cristo, não sobre o relacionamento dos planetas. Calvino admoestou contra a expectativa de Moisés dar informações científicas. Não devemos “censurar a Moisés por não falar com maior exatidão… Moisés escreveu em estilo popular coisas que, sem instruções, pessoas comuns, dotadas de bom senso, são capazes de entender; mas os astrônomos investigam com grande esmero aquilo que a sagacidade da mente humana pode compreender”.[5] Como a Bíblia não foi feita como manual de teoria artística, literária, musical ou política, também não deveria ser vista como livro texto para as ciências. Tudo nas Escrituras é verdade, no sentido daquilo para o qual foi escrito pelo autor original. Só que o propósito das Escrituras não é nos contar tudo sobre todas as coisas, mas explicar – na linguagem mais comum e básica possível – o progresso da obra salvífica de Deus em Cristo ao longo da história da redenção. Alguns crentes ficaram nervosos com o surgimento da astronomia e das mudanças em potencial que ela poderia trazer para o modo que se entendia o universo, mas Calvino avisou: “Esse estudo não deve ser reprovado, nem a ciência deve ser condenada, porque algumas pessoas desesperadas tendem a rejeitar ousadamente qualquer coisa que lhes é desconhecida”.[6]

Os reformadores deram grande espaço à “revelação natural” e às disciplinas seculares que desfraldavam a sabedoria divina de modo a complementar as Escrituras. O resultado foi enorme: “Ninguém pode negar a preponderância dos protestantes entre os cientistas após 1640. Luteranos, anglicanos e, acima de tudo, calvinistas, fizeram mais descobertas científicas do que os católicos e apreciam ser mais flexíveis em colocá-las em prática”.[7]

Na área da educação (assunto de lição anterior) Lutero persuadiu o governo a proclamar a educação universal compulsória tanto para meninas como para meninos e criou um sistema de educação pública na Alemanha. Calvino argumentou em suas Ordenanças de 1541: “Como é necessário preparar para as gerações futuras, a fim de não se deixar a igreja num deserto para os nossos filhos, é imperativo que se estabeleça um colégio para se instruir os filhos e prepará-los tanto para o ministério quanto para o governo civil”. Esta Academia, que mais tarde tornou-se na Universidade de Genebra, tornou-se modelo para as grandes universidades da Europa e do Novo Mundo. João Comenius foi o reformador polonês que procurou integrar sua visão reformada do mundo com a visão da educação pública universal. Ele é visto por muitos como sendo o pai da educação moderna.

Os reformadores não apenas amaldiçoaram as trevas: estavam decididos a trabalhar de maneira positiva para o bem do próximo e para a glória de Deus. Tomaram o estandarte e ergueram os padrões para toda uma época, em vez de simplesmente lamentar as condições e propor legislação. Estavam longe de ser perfeitos, mas foi uma experiência notável naquilo que pode ser feito quando o povo de Deus é libertado pelo evangelho para o bem de seu próximo e para a glória do seu Redentor.

Mas esse testemunho evangélico, naturalmente, não começou nem terminou com os séculos 16 e 17. Um exemplo mais recente é o de Abraão Kuyper (1837-1920). Uma das suas contribuições importantes foi sua insistência de que os cristãos na política servissem à nação toda e que não apenas promovessem o bem de seus próprios guetos espirituais. Para Kuyper, “Não existe uma só polegada, em todo o domínio de nossa vida humana, da qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame: Meu!”. É claro que essa frase poderia ser tomada pelos incrédulos como uma tentativa de impor a fé cristã sobre toda a sociedade. Mas Kuyper estava destacando o senhorio de Cristo sobre “todo o domínio da vida de cada crente”. A vida dos crentes será regulamentada e regida pela vontade revelada de Deus, não apenas nos domingos, mas às segundas-feiras também. Todo pensamento tem que ser levado cativo a Cristo, declarou Paulo. Homens e mulheres todos devem se curvar ante o reino de Cristo sobre toda a vida, mas até o dia final somente os crentes o farão. Naquele dia “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus pai” (Fp 2.10,11).

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