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A pandemia, a graça e o juízo de Deus!

Enquanto o mundo observa as trágicas consequências da pandemia de Covid-19, espalha-se a notícia de que o juízo de Deus está em ação. Tem sido esta a explicação de alguns cristãos para a pandemia. Trata-se da construção de uma ponte entre as narrativas bíblicas sobre os juízos de Deus e a pandemia dos dias atuais. Fica a dúvida se ela fornece uma boa compreensão sobre Deus e sobre o papel da igreja na presente situação.

A principal expectativa que se pode ter desta abordagem é a paralisia, o medo, ou a resignação diante do tribunal divino. O que é compreensível, pois o mal e a morte não são incubadores de esperança e de vida. Uma mudança só pode ser provocada pelo anúncio do evangelho, não do juízo, logo não se espera um efeito transformador. Os sobreviventes, confusos em sua perdas e em seu pavor, verão a si mesmos como vitoriosos eventuais na luta contra o destino.

Associar o juízo divino à pandemia satisfaz as mentes curiosas, mas não faz justiça ao quadro completo, e complexo, das escrituras. A Bíblia é a história da salvação, não um manual de explicação dos desastres. A mensagem da igreja é sobre um Deus que transtorna, ou desorganiza, as condições trágicas, porque é chegada a salvação.

Salvação e o juízo precisam ser entendidos a partir da cruz, e só a partir dela pode-se ter, também, uma compreensão correta sobre Deus. Não se trata de omitir o juízo na proclamação do evangelho, mas de fazê-lo convergir a Cristo e à cruz, ou seja, subordiná-lo à grandiosidade da graça e da misericórdia. A riqueza da proclamação cristã encontra-se no anúncio das “coisas boas”, como nos lembra o apóstolo Paulo:

“Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?  E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.14-15).

Outro aspecto da associação da pandemia com o juízo de Deus é a sua ênfase na soberania de Deus ao castigar a humanidade. A abordagem não se lembra, entretanto, da soberania de Deus na provisão da salvação. Falta-lhe considerar a sua soberana vontade de agir como salvador, como resgatador, lembrando que nenhuma tragédia pode aliená-lo desta vontade. Deus tem o poder de contornar todos os empecilhos quando o seu propósito é resgatar vidas.

Enfim, andamos ansiosos por uma aula que coloque a soberania de Deus no quadro da sua misericórdia. Uma aula que esclareça os propósitos dos relatos bíblicos sobre os castigos enviados por Deus, sem dar contornos fúnebres para a didática divina. Que alerte para a insuficiência da visão mecanicista da soberania divina e ensine o exercício da humildade, do lamento e do silêncio diante do mistério que é o mal.

O que podemos enfatizar – e temos toda confiança em afirmar – é que Deus enviou a Vida, não a morte, e deseja que todos se salvem. Ele vence o mal e transforma campos de tragédias em campos de paz. Faz todo sentido anunciar a soberania divina, pois ela faz brotar o bem a partir das tragédias, guerras, pestes e mortes. Estas últimas são próprias da condição humana e só uma vontade sobrenatural pode vencê-las.

A situação atual pode sugerir, para alguns, os temas da ira e do juízo, mas a questão mais importante do momento é o valor da vida. E esta abordagem não atenta para isto. O que vai, de fato, recomendar o evangelho ao mundo são os sinais da graça, os gestos a favor da vida, a solidariedade, o amor que se entrega e a chegada do resgate quando tudo parecia desesperança e impotência.

Não cabe à igreja o papel do meirinho a serviço do cumprimento de uma ordem de prisão, ou de exílio. A oportunidade atual da igreja é semelhante à do embaixador, que anuncia aos refugiados a vinda de um avião de resgate.

A visão correta da soberania de Deus faz a igreja enxergar que o criador dos céus e da terra manda também a salvação, utiliza seu poder para resgatar, para criar oportunidades de êxodo. Pragas, pestes, guerras são da condição humana. Sobrenatural é a salvação, é a sobrevivência do testemunho da igreja, é o resultado bom apesar do início ruim, é a água viva encontrada no meio do inferno de fogo.

A bela visão do profeta Isaías sobre a soberania de Deus é o incentivo para a igreja enfrentar o medo e a paralisia:

“Por que você reclama, ó Jacó, e por que se queixa, ó Israel: “O Senhor não se interessa pela minha situação; o meu Deus não considera a minha causa”? Será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto, sua sabedoria é insondável. Ele fortalece ao cansado e dá grande vigor ao que está sem forças. Até os jovens se cansam e ficam exaustos, e os moços tropeçam e caem; mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam bem alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam.” (Is 40.27-31)

Délio Porto é engenheiro e reside em Minas Gerais. Retirado de ultimato.com.br

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