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A geladeira do templo…

“Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês?” (1 Coríntios 3:16) Não sei se sei. Às vezes acho que sei, outras tenho certeza que ignoro completamente. É difícil compreender tal coisa. Tá muito além da minha capacidade de apreender. Afirmo com a mente e tenho lampejos com o coração, mas sei que a coisa é bem maior do que consigo experimentar.

A dificuldade começa por uma composição não tão sutil que Paulo usa e que insistimos em ignorar. Movidos pelo simbolismo da liturgia de Israel, imaginamos que o autor está afirmando a mesma coisa em duas sentenças, tipo “vocês são templo, logo são morada”. Mas Paulo usa palavras, não apenas diferentes, mas de universos semânticos díspares. Não vou usar as palavras gregas aqui para não tornar o texto pesado, mas há uma diferença clara entre ser “santuário/templo” e ser “morada/lar”. A primeira pressupõe liturgia, ritos e muita, mas muita reverência. A segunda fala de descontração, de intimidade e de aconchego.

No templo eu calculo gestos e palavras. Vigio até meus pensamentos. Em casa eu me jogo no sofá e me desnudo diante dos meus. No templo não consigo me libertar completamente de uma certa apreensão e mesmo de um pouquinho de medo. Penso até que são sentimentos necessários para essa dimensão de relação com o Sagrado. Em casa, por outro lado, me sinto seguro e meus medos se vão. Se não me sinto confortável, a casa já não é lar.

Pois bem. Trouxe você comigo até aqui e penso que a viagem tava ficando legal, mas preciso interromper. É que até agora não revelei um detalhe: desenvolvi toda a fala como se o texto estivesse dizendo que Deus é templo e casa nos quais devemos nos acomodar adequadamente. Mas não é isso que o testo diz. Nós é que somos templo e casa onde Deus se revela e habita.

Disso decorre um monte de coisas.
Que tipo de templo eu sou para que o sagrado se revele em mim?

Sou templo de vendilhões e aproveitadores? De promotores de eventos e apresentadores de programas de auditório? Sou templo vazio de simbolismos por medo da idolatria ou sou o templo da idolatria sem os símbolos do sagrado? Sou templo que celebra sem frivolidade ou sou templo banaliza para poder celebrar? Sou templo onde o choro encontra lugar sem se desesperar ou que tolhe a expressão do choro para simular uma alegria que nunca existiu?

Que tipo de casa eu sou para que Deus possa se mudar para mim?

Sou mansão suntuosa e gélida ou casebre simplório e aconchegante? Sou casa com sistema sofisticado de segurança e falta de paz ou casa sem muros e que permite o sono tranquilo? Sou castelo com dezenas de cômodos desabitados ou quarto e sala apinhado de gente e de vida?

Pra ser fiel ao escritor, prefiro não arriscar respostas. Mas uma providência eu vou tomar urgentemente.
A partir de hoje vou mudar essa história de geladeira de templo só ter água. No templo que sou, a geladeira estará repleta de frutas, temperos verdes, carnes, caldos, molhos e sobremesas. Também providenciarei outras bebidas para dar sabor e alegrar o coração. Acho que Deus se sentirá mais à vontade. De repente, consigo diminuir a distância entre o o templo e a casa!

Afa Neto

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