Mensagens ouvidas por acaso

Quando eu tentava […] descrever nossas saudades espirituais, estava omitindo uma das suas características mais curiosas. Geralmente a percebemos como no momento em que a visão definha, em que a música acaba ou quando a paisagem perde a sua luminosidade celestial. […] Por alguns poucos minutos, tivemos a ilusão de pertencer àquele mundo. Agora acordamos para descobrir que não é nada disso. Não havíamos passado de simples espectadores. A beleza havia sorrido, mas não para nos dar as boas-vindas; sua face havia se voltado em nossa direção, mas não para nos ver. Nós não fomos aceitos, bem recebidos, ou convidados para a dança. Podemos ir embora, se quisermos, mas podemos ficar, se pudermos: “Ninguém nos nota”. Um cientista pode muito bem dizer que, já que a maior parte das coisas que chamamos de belas são inanimadas, não é tão surpreendente que elas não nos notem. É claro que isso é verdade. Não estou falando dos objetos físicos, mas daquele algo indescritível do qual eles se tornaram mensageiros por um instante. E uma parte da amargura que se mistura com a doçura dessa mensagem deve-se ao fato de que raramente parece tratar-se de uma mensagem destinada a nós, e sim de algo que ouvimos por acaso. Quando falo de amargura, quero dizer sofrimento, e não ressentimento. Dificilmente deveríamos ousar pedir que alguém preste atenção em nós. Mas nós suspiramos. A sensação de que somos tratados como estrangeiros neste mundo, o desejo de ser reconhecido, de encontrar algumas respostas, de ladear alguns abismos que se abrem entre nós e a realidade, fazem parte do nosso segredo inconsolável. E certamente, desse ponto de vista, a promessa de glória, no sentido descrito, se torna altamente significativa para o nosso desejo mais profundo. Pois “glória” significa boa fama diante de Deus, aceitação da parte dele, resposta, reconhecimento e boas-vindas na essência das coisas. A porta na qual batemos por toda a nossa vida finalmente se abrirá.

>> Retirado de Um Ano com C. S. Lewis, Editora Ultimato.

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