A hora de deixar o pastorado…

Nem sempre é fácil identificar o momento certo para deixar o pastorado. Todo obreiro responsável procura desenvolver o trabalho atento a qualquer evidência de que chegou o tempo de sair. Neste texto, temos um relato, uma experiência, um referencial. Desejamos contribuir para a reflexão.

Pastoreei uma mesma igreja durante 15 anos. Neste período houve várias ocasiões em que eu poderia ter dito adeus; em algumas, até desejei que isto acontecesse, mas não senti à vontade para tomar esta decisão. Em certa ocasião, pensei seriamente em sair e dizer adeus, mas não pude; senti que esta não era a vontade de Deus; então continuei realizando o ministério para o qual fui designado pelo Senhor.

Assumi o pastorado desta igreja com o compromisso, com Deus e comigo mesmo, de não permanecer no ministério por menos de dez anos, a despeito de qualquer problema que viesse a existir. Sempre achei que o pastorado de curta duração é um dos maiores problemas que a igreja enfrenta. Por isso dispus-me a ficar o tempo suficiente para alcançar determinadas metas, supondo que algumas mudanças só começam a ocorrer, efetivamente, por volta do sétimo ou oitavo ano de ministério.

No decorrer dos anos, enquanto trabalhava para alcançar tais metas, defrontei-me com algumas barreiras ao longo do caminho. Havia um pequeno grupo na igreja que promovera a saída de alguns pastores que me antecederam. Em várias ocasiões, este grupo se esforçara ao máximo para criar este tipo de situação comigo. Durante os primeiros oito anos do meu ministério, sobrevivi a estes esforços. Nossa denominação, naquela época, realizava uma avaliação de dois em dois anos com o propósito de rever o relacionamento entre o pastor e a igreja, e as condições de continuidade do trabalho. Numa dessas avaliações, fui aprovado pela igreja por uma diferença inexpressiva de votos; contudo, me firmei no propósito que havia feito de ficar pelo menos dez anos, e continuei.

Os bons anos vieram. Muitas coisas começaram a acontecer com uma rapidez incrível. A igreja começou a prosperar financeiramente; novos membros foram sendo acrescentados à família cristã a cada ano; remodelei o santuário para construir um bonito salão para o culto. Os anos se tornaram frutíferos à medida que a igreja crescia, conforme previam os especialistas.

Foi justamente neste estágio que enfrentei outro obstáculo. Uma família importante na igreja, que há muito tempo era formada pelos maiores e mais fiel contribuintes comunicaram que estava saindo da igreja. Meu compromisso de administrar a igreja por no mínimo dez anos chocou-se com a opinião desta família, de que um pastor deve transferir-se de cinco em cinco anos. Para eles eu já tinha ficado por muito tempo.

No momento da escolha entre o pastor e a maior contribuição financeira na arrecadação semanal, muitos membros do conselho estavam dispostos a me dispensar e conservar a oferta. Eu tinha a certeza de que Deus não havia revelado nada com relação a minha saída. Sempre mantive o compromisso de dez anos que assumi comigo e com Deus. Não me senti dispensado a ir.

Foi durante aquele tempo de desordem que programei um retiro na Costa, e pedi a um outro pastor local para ser o nosso preletor. Sem nenhum incentivo da minha parte, ele sentiu o desejo de utilizar o final de semana para falar sobre o relacionamento entre o pastor e as pessoas. Naqueles dias, por várias vezes, ele mencionou que o pastor é uma pessoa de Deus, escolhido por Deus, e colocado numa congregação específica para dirigi-la também por Deus. Ninguém pode tentar transferir o pastor, disse ele, sem que Deus mostre que deve ser assim. Num determinado momento durante o retiro, o pastor fez uma afirmação que imobilizou de tal maneira um dos membros do conselho, que ele pediu para que ele repetisse o que fora dito. Ele então repetiu, dizendo: “Se uma pessoa ou um grupo de pessoas ameaçam sair de suas igrejas, caso o pastor não saia deixe-nas ir. O pastor é uma pessoa de Deus, no lugar de Deus, no tempo de Deus, sob a nomeação de Deus. Não é dado a ninguém o direito de tomar as decisões por Deus”.

Agradeço a misericordiosa direção de Deus e as palavras corajosas do meu amigo pastor, o conselho da igreja decidiu que poderíamos ficar sem o nosso tão grande patrocinador. Decidimos confiar em Deus e deixar que ele suprisse as nossas necessidades. Dentro de algumas semanas, novas famílias começaram a assistir as nossas reuniões e as ofertas começaram a crescer novamente. Não houve um domingo sequer em que sofrêssemos financeiramente por causa daquela perda.

A marca dos dez anos veio e foi. Tornei-me o pastor que por mais tempo permaneceu na igreja, nos seus 70 anos de história. De fato, eu estava alcançando rapidamente o dobro da margem atingida pelos pastores anteriores; muitas já haviam sido quadruplicadas. A média de permanência tinha sido um pouco mais de dois anos. Enquanto isso, eu não sentia nenhum desejo de sair.

Quando os primeiros dez anos se completaram, aconteceu um fato significativo. Aquele grupo que havia sido responsável pela saída de vários pastores por décadas aos poucos perdeu sua influência. Percebi então que isto era uma das coisas que Deus queria que eu fizesse ao me enviar para aquela igreja. Contudo, foi o compromisso de ficar no mínimo dez anos à frente daquele ministério que muitas vezes me fez prosseguir.

Recordo-me de ter escutado Bill Yeager, um experiente pastor da Primeira Igreja Batista em Modesto, Califórnia, contar uma história sobre uma grande rã em um pequeno açude. A grande rã, dizia ele, tem tão alto e bem conhecido coaxo que todas as pequenas rãs escutam e coaxam juntamente com ela. Se ela pula, as outras também pulam. A resposta para a síndrome da grande rã nas pequenas igrejas o sugere, é construir outro açude e gradualmente mover todas as pequenas rãs da esfera e influência da grande rã. Um dia ela coaxará e ninguém estará escutando. Era o que nós tínhamos feito.

Estava no meu 13º ano de ministério quando um novo problema estourou. Cinco pessoas, um casal e outras três, que tinham atuado no meu ministério e haviam se tornado os meus mais fortes defensores, participaram de uma reunião do conselho onde encaminharam uma solicitação para que eu deixasse a igreja. Cada um tinha razões diferentes, mas o que todos desejavam era a substituição. Eles queriam outra voz no púlpito, outra mão no leme. Eles expressaram suas insatisfações detalhadamente.

Isso aconteceu no mês de dezembro, e vale ressaltar que o meu natal foi arruinado. Naquele ano não houve nenhum clima para a celebração familiar, embora este assunto não fosse algo que discutíssemos com as crianças. Eu e minha esposa oramos muito durante as semanas que se seguiram, mas Deus parecia permanecer inflexível; não revelava se estava na hora de sairmos. Fiquei tão magoado que o meu desejo era partir, mas sabia em meu coração que ainda não era a hora certa. Então resolvi ficar e iniciar-me num processo de cura interior da ferida que me marcou.

Com o auxilio do conselho de membros, encontrei-me com cada um dos cinco que desejavam a minha saída. Saímos para almoçar, conversarmos em casa, tivemos alguns encontros na igreja que viraram a noite. Aplicando princípios básicos para resolução de conflitos, chegamos a um entendimento. Resolvemos as novas expectativas de cada um. Chegamos a um entendimento sobre a chamada de Deus e a escolha do momento certo para todas as coisas, e assim prosseguir.

Um ano mais tarde, com novas famílias vindas para a igreja, e com meu ministério tão livre e eficaz como jamais tinha sido Deus começou a mostrar que era hora de partir. Sonhos que tinham permanecido em minha mente por anos, começaram a despontar à superfície. Possibilidades para expandir o ministério começaram a povoar meus pensamentos. Idéias começaram a fluir como a explosão repentina de um poço artesiano.

Compartilhando com a minha esposa o que estava acontecendo em minha mente, ela disse que havia tido pensamentos semelhantes. Entretanto, Deus estava apontando para outra direção. Começamos a orar e, dentro de poucas semanas, sabíamos que logo chegaria a hora de ir. Os sonhos que Deus havia plantando em meu coração para um ministério mais amplo tinham urgência de serem realizados.

Planejamos a nossa marcha de acontecimentos com oração. O líder de meu campo ele me falou sobre a direção de Deus, confirmando meus dons e talentos para a área para a qual Deus estava me apontando, e insistiu para que eu seguisse adiante. Outros pastores de minha inteira confiança fizeram a mesma confirmação.

Planejamos nossa saída para depois de seis meses. Desejoso de estar seguindo a direção de Deus fiz um propósito perante ele. Disse: “Pai, estou indo pregar como jamais preguei antes. Estou indo liderar um trabalho intensamente dinâmico. Se o Senhor deseja que eu fique, mostre um sinal que confirme esta tua vontade. Caso contrário, aprove a minha ida.” Passados três meses, tive a confirmação. Senti-me completamente livre para ir. Deus mostrou claramente que havia chegado a hora de dizer adeus.

Muitos pastores, principalmente os iniciantes, têm a tendência de querer abandonar o ministério tão logo surjam os primeiros problemas. É fácil entregar-se às pressões. Damos ouvido com mais facilidade à opinião das pessoas do que à orientação de Deus. Hoje percebo que, de dois dos ministérios por onde passei, saí cedo demais. Somente neste último posso dizer que realmente fiz o que era certo.

Algumas sugestões para entender o tempo suficiente de um ministério, e a hora certa de dizer adeus.

  1. Inicie um ministério com o compromisso de ficar o tempo determinado por Deus – pode significar que você poderá até se aposentar nesse pastorado; você permanecerá até que cumpra o propósito estabelecido por Deus, até que conclua a obra que ele pôs em suas mãos.
  2. Não se deixe oscilar pela opinião dos outros – se um grupo de pessoas reunirem-se para forçar sua exoneração, mantenha-se firme; não tome nenhuma decisão sem primeiramente consultar a Deus. Seja qual for a vontade D’Ele, Ele a revelará primeiro a você.
  3. Não se deixe vencer pelo desânimo ou pelo cansaço – não deixe que as horas de águas paradas o convençam a abandonar o ministério, sem que você experimente as chuvas da Primavera, onde a maré do rio começa a encher novamente. A água parada significa que não está acontecendo nenhum tipo de decisão, o que faz muitos pastores perder os mais produtivos anos de ministério de suas vidas.
  4. Para qualquer decisão, espere por uma confirmação da parte de Deus – lembre-se que o ministro é uma pessoa de Deus, no lugar onde Deus quer no tempo de Deus. Quando há pessoas que desejam a sua saída, ou você mesmo deseja sair, não sendo esta a vontade de Deus, pode ocorrer um conflito interior que abale sua vida.
  5. Decida sair somente num momento de serenidade, e não em meio às tempestades – saía em condições favoráveis a todos, em que Deus seja glorificado e seus propósitos para a igreja não sofram solução de continuidade.
  6. Na hora certa de sair, confidencie a sua decisão a amigos mais próximos antes de anunciá-la publicamente – programe um tempo para conversar com pastores colegas de sua inteira confiança, ore e busque a direção de Deus conjuntamente com eles.
  7. Nunca decida ficar, se Deus já respondeu que é hora de sair – em quaisquer circunstâncias, ouça a voz de Deus. Ele é o único cujo julgamento não é tendencioso.
  8. Não receie em transparecer suas sinceras emoções – abraços, ombros molhados de lágrimas representam o reconhecimento das pessoas e a consolidação do seu ministério. Muitos poderão até dizer: Estou perdendo você, pastor, mas sei que está seguindo a vontade de Deus.
  9. O período de despedida é oportuno para se dizer adeus, mas também para expressar arrependimentos, e tratar de feridas encobertas– esse pode ser o momento de feridas que porventura ainda não tenha sido tratadas e curadas ser resolvidas, relacionamentos ser restaurados e expressões de louvor e gratidão a Deus ser vivenciadas.
  10. Faça de sua saída um momento de comemoração dos anos de ministério e das amizades – finalmente você poderá dizer: sinto-me bem com a minha decisão. Era o tempo de Deus; não podia ser mais cedo ou mais tarde. Você é uma pessoa de Deus, no lugar de Deus, no tempo de Deus, fazendo as coisas para a glória de Deus.

Retirado da revista Administração Eclesiástica da JUERP

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